5. BRASIL 8.8.12

1. O PELEGO QUE PAROU O PAS
2. DE GETLIO AO PT
3. PASSADO CONTESTADO
4. QUANTO CUSTA A SUA SEGURANA?
5. O VALERIODUTO AINDA OPERA
6. KARINA A TESTEMUNHA ESQUECIDAS
7. PENA IMEDIATA
8. BRASIL CONFIDENCIAL - "TCHAU, BOLSA"

1. O PELEGO QUE PAROU O PAS

Saiba quem  Nlio Botelho, o homem que est por trs da paralisao das principais rodovias brasileiras 
Pedro Marcondes de Moura 

COM OS DONOS - O sucesso de Nlio Botelho explica-se pela sua proximidade com os patres
 
O presidente do Movimento Unio Brasil Caminhoneiro (MUBC), Nlio Botelho, detm uma tradio. A cada 13 anos, ele encabea uma ao que paralisa o Pas. Sempre em 25 de julho, dia de So Cristovo  o padroeiro de quem leva a vida na boleia. Foi assim, em 1986, quando liderou a primeira greve nacional da categoria, responsvel pela criao dos primeiros sindicatos de caminhoneiros, como o do Rio de Janeiro, do qual  presidente. Repetiu a dose com mais intensidade em 1999, provocando a ira do presidente Fernando Henrique Cardoso. Na ocasio, FHC chegou a cogitar o uso do Exrcito para desmobilizar o movimento que se alastrou pelas estradas de norte a sul do Pas. Mantendo a tradio, Nlio Botelho voltou a agir nas ltimas semanas. Da sede do MUBC, disparou, com a ajuda de seu staff, milhares de mensagens eletrnicas conclamando os companheiros a pararem as rodovias brasileiras no dia 25 de julho. Enquanto selava, em Braslia, um acordo com o ministro dos Transportes, Paulo Sergio Passos, na tera-feira 31, ele j tinha parado as principais vias de ligao do Pas e os motores de 80% da frota nacional de caminhes.
 
Tamanho sucesso das investidas de Nlio Botelho, segundo lideranas do setor, explica-se pela sua proximidade com os patres. O prprio Nlio no esconde a relao. Existe interesse patronal, sim. Mais de 75% deles esto a caminho da falncia com a situao atual. Esto nos apoiando, diz. As empresas pararam mais de 50% dos seus caminhes, complementa. Botelho justifica que o setor vive um perodo to conturbado que exige a unio dos dois lados. Eu mesmo, como estou envolvido com a cooperativa, sindicato e o movimento, tenho um funcionrio que dirige meu caminho. Queria pagar para ele um salrio bem melhor. Mas, com a condio atual, no d, resume Nlio. Entre outras reivindicaes, o MUBC questiona a lei que obriga os caminhoneiros a descansar, pelo menos, 11 horas por dia.
 
Publicamente, Nlio Botelho faz questo de dizer que tem alergia a poltica e que o movimento comandado por ele  apoltico. Quando vou a Braslia, recebo um monte de cartes de deputados e ignoro. Agora, ento, vai ter mais ainda. O prprio site da organizao, porm, desmente o seu lder. Em uma pgina  possvel ler: Nas eleies de 2000, comprovamos nossa real capacidade ao contribuirmos decisivamente na eleio de inmeros vereadores e vrios prefeitos, em diversos Estados do Pas. Essa viso  mais condizente com a ideia de Nlio de que a categoria pode montar o sindicato mais forte do Pas.


2. DE GETLIO AO PT

Figura histrica, o ex-funcionrio de Vargas Alcino Nascimento, condenado pelo atentado contra Lacerda em 1954, concorre a vereador pelo PT
Pedro Marcondes de Moura 

As eleies na pacata cidade de Mantenpolis, no Esprito Santo, vo reavivar a memria do episdio que culminou com o suicdio do ex-presidente Getlio Vargas. Entre os postulantes a uma vaga na Cmara Municipal da cidade na eleio deste ano aparece o nome de Alcino Joo do Nascimento. Candidato pelo Partido dos Trabalhadores, o aposentado, de 90 anos, cravou seu nome na histria brasileira por ser o pistoleiro do atentado da rua Tonelero, ocorrido na madrugada de 5 de agosto de 1954 no Rio de Janeiro. Para no correr risco de perder votos, no entanto, Alcino prefere no comentar sobre sua participao no rumoroso caso. Fui aconselhado pelo PT a no falar sobre o assunto, disse.
 
O temor do candidato petista  explicvel. Segundo relatos oficiais, Alcino foi contratado por integrantes da guarda pessoal de Getlio, como seu guarda-costas Gregrio Fortunato, para calar a tiros a voz mais cida da oposio: o jornalista Carlos Lacerda. A ao mal planejada resultou no assassinato do major-aviador Rubens Vaz, alvo de dois disparos, num tiro no p de Lacerda e noutro no guarda municipal Svio Romero. Com a comprovao da ligao de pessoas prximas ao governo no incidente, acirraram-se ainda mais os nimos dos militares pela sada de Vargas do poder. Em 24 de agosto, Getlio suicidou-se com um tiro no peito, optando por deixar a vida para entrar na histria. E, dois anos depois, Alcino foi condenado a 33 anos de priso.

DOIS TEMPOS - Alcino Nascimento em 1956 (abaixo) durante julgamento pelo atentado que incriminou Vargas e hoje como candidato do PT (acima)

Por razes pessoais e eleitorais, Alcino prefere relembrar de um passado que ele considera mais nobre, como os momentos em que viveu ao lado do ex-presidente Juscelino Kubitschek. Em 1939, recm-casado, Alcino procurou JK em Belo Horizonte com um pedido de emprego. Obteve xito. Foi contratado como mestre de obras. Tive o prazer de servir a Juscelino por mais de trs anos, antes de trabalhar com Getlio, diz. Em comum entre Getlio e Juscelino, ele v o empenho pelos mais pobres. Questionado sobre o motivo de se candidatar aos 90 anos, Alcino recorre a um clich: Quero ajudar o povo.


3. PASSADO CONTESTADO

Jos Dirceu, segundo o juiz aposentado Slvio Mota, seu ex-companheiro no treinamento de guerrilha em Cuba, levou uma vida mansa, protegido e privilegiado por amigos de Fidel 
Adriana Nicacio

UM Z DIRCEU DIFERENTE - O ex-ministro (acima) passava o tempo no cinema, conforme o ex-companheiro Slvio Mota (abaixo)

No fim de semana que antecedeu o incio do julgamento do mensalo, o ex-ministro Jos Dirceu se recusou a participar de uma solenidade destinada a festejar um perodo obscuro de seu passado. O ato pblico, convocado por organizaes de esquerda, pretendia relembrar o Movimento de Libertao Popular (Molipo), um grupo formado por 28 exilados brasileiros que treinavam guerrilha em Cuba nos anos 70. Dirceu, que era um deles, achou mais prudente evitar a apario pblica. Alm do ex-ministro, s h mais dois sobreviventes do Molipo: o juiz aposentado Slvio Mota e o mestre-de-obras, tambm aposentado, Otvio ngelo ? todos os demais foram mortos pela represso quando retornaram ao Brasil. Slvio Mota, contemporneo das andanas cubanas de Dirceu, acha que o ex-companheiro fez bem em evitar as homenagens: ?Ele nunca combateu de verdade?, diz Mota.
 
Slvio Mota sente-se  vontade para desconstruir a imagem combativa do petista em sua passagem pela ilha de Fidel Castro. Ele guarda na memria a figura de um militante indisciplinado e cheio de privilgios. Segundo Mota, enquanto os integrantes do Molipo participavam dos exerccios militares pesados, Dirceu levava uma boa vida, protegido por autoridades cubanas. ?Ele preferia passar seu tempo nas salas de cinema?, conta. Jos Dirceu refugiou-se em Cuba em 1969, depois de ter sido preso no Congresso da UNE, em Ibina, no interior de So Paulo, e trocado pelo embaixador americano Charles Elbrick. Em pouco tempo, tornou-se ntimo do ento presidente do Instituto Cubano de Arte e Indstria Cinematogrfica, Alfredo Guevara, amigo de Fidel Castro. De acordo com o relato de Mota, Dirceu passou, ento, a se aproveitar dos poderes de seu protetor para fugir do treinamento guerrilheiro. ?Dirceu era indisciplinado. No combateu no Molipo, como tambm no havia combatido na ALN (Aliana Libertadora Nacional) no Brasil?, diz Mota.

Segundo o juiz aposentado, Dirceu logo conseguiu abandonar em definitivo o treinamento. Alegava dores nas costas. Assim, pde livrar-se das horas seguidas de marchas na selva, sem alimentos na mochila e cantis vazios. Em condies insalubres, os militantes do Molipo passavam semanas sem banho, participavam de cursos de tiros e aprendiam a montar explosivos. Todos, menos o ex-ministro, ru do mensalo. ?O projeto de Dirceu sempre foi pessoal. E quis o destino que terminasse aparecendo essa sua verdadeira face oportunista?, diz Mota. O juiz voltou ao Brasil em 1979, quatro anos depois de Dirceu. Depois da temporada em Cuba, os dois se viram poucas vezes. Mota chegou a se filiar ao PT, mas no seguiu carreira poltica. De Dirceu, prefere manter distncia.


4. QUANTO CUSTA A SUA SEGURANA?

De alarmes a vigilantes noturnos, a venda de produtos e servios de proteo pessoal aumentou 40% no Brasil. Saiba como resguardar seu patrimnio e como investir na medida certa
por Adriana Nicacio e Fabola Perez

Cmeras de vigilncia, alarme, cerca eltrica e at mesmo vigilantes noturnos. Produtos e servios como esses se tornaram itens de primeira necessidade para garantir a segurana de quem vive nos grandes centros urbanos do Pas. No ltimo ano, segundo comerciantes do setor, a venda de equipamentos de proteo pessoal cresceu 40% no Brasil. Um servio que era restrito s classes de maior poder aquisitivo comea a ser oferecido a todas as faixas de renda da populao, afirma Leonardo Simonetti, gerente da Safety Center do Brasil. Para o especialista em segurana pblica e privada Jorge Lordello, o crescimento da violncia urbana gera uma despesa extra que muitas vezes passa despercebida pela sociedade. Quando se constri uma casa o custo da segurana j vem embutido, lembra. Segundo Lordello, esse gasto chega a 5% do valor do imvel. A expanso desse mercado garantiu tambm o surgimento de alternativas mais econmicas para o consumidor. Seguros de eletrnicos e rastreadores via satlite podem ajudar a diminuir as despesas e garantir a segurana do patrimnio pessoal.


5. O VALERIODUTO AINDA OPERA

Investigaes do ministrio pblico indica que empresas ligadas ao publicitrio Marcos Valrio continuam a receber recursos pblicos por meio de contratos feitos com pelo menos dois ministrio e estatais
Por Claudio Dantas Sequeira e Izabelle Torres

O publicitrio Marcos Valrio  considerado um dos maiores arquivos vivos da histria recente do Pas. Acusado de ser o operador do esquema de corrupo que escoou milhes em recursos pblicos para o caixa de partidos e polticos, Marcos Valrio certamente , entre os 38 rus do processo do mensalo, o que teria mais a revelar. No entanto, nos ltimos sete anos, apesar de ter sido preso, desmoralizado publicamente e vivido s voltas com processos de cobrana na Justia de uma dvida de pelo menos R$ 83 milhes, Valrio manteve-se em silncio. Mesmo sob o risco de ser condenado no STF a 43 anos de priso, o publicitrio mineiro permanece calado. Para o Ministrio Pblico, o mutismo de Valrio significa apenas um trunfo esperto, uma espcie de moeda de troca contra os mesmos polticos que ajudou l atrs. Esse jogo de barganha estaria servindo ao propsito de manter o Valerioduto em plena atividade. Novas investigaes, que correm em sigilo, e o cruzamento de contratos pblicos feitos por ISTO indicam que Marcos Valrio segue faturando alto, operando de forma mais discreta com a ajuda de novos intermedirios e empresas.

Uma das principais conexes do Valerioduto, segundo o MP,  a empresa T&M Consultoria, que pertence ao advogado Rogrio Tolentino, velho amigo, ex-scio, um dos rus do mensalo e parceiro de Marcos Valrio nos esquemas de corrupo. Documentos em poder do Ministrio Pblico de Minas Gerais indicam que, apesar de no serem mais scios formais, Valrio e Tolentino dividem os lucros das consultorias e servios prestados pela T&M a empresrios interessados em vencer licitaes em rgos pblicos. Uma das clientes da T&M  a ID2 Tecnologia. Com sede em Braslia, a pequena empresa, que tinha atuao inexpressiva na Esplanada, deu um salto invejvel no seu faturamento. Aps a interveno da dupla Tolentino-Valrio, a ID2 fechou vrios contratos, um de R$ 15 milhes com o Ministrio do Turismo e outro de R$ 14 milhes com a Fundao Nacional de Sade (Funasa).

Os dois negcios da ID2, porm, foram reprovados pelos rgos de controle. A Controladoria-Geral da Unio (CGU) encontrou superfaturamento de R$ 11 milhes no contrato do Ministrio do Turismo. No caso da Funasa, segundo auditoria do Tribunal de Contas da Unio (TCU), assinada pelo ministro Aroldo Cedraz, o contrato no foi cumprido de forma integral, faltando comprovaes sobre o destino de pelo menos 24% dos recursos pagos. A ID2 nega qualquer relao com Tolentino e Valrio. Procurado por ISTO, o diretor de operaes da empresa, Jess Rovira, chegou a dizer que no tinha prestado servio  Funasa. Confrontado com as ordens de pagamento do Ministrio da Sade, voltou atrs e admitiu a existncia do contrato. Foi entregue um sistema logstico para compra de medicamentos, que est implantado e em funcionamento, disse Rovira, alegando desconhecer o parecer do TCU. A ID2 tambm foi contratada pelo Ministrio dos Transportes para prestar servios  Valec, estatal que foi alvo de ao recente da Polcia Federal. Na operao, foi preso o presidente da Valec, Jos Francisco das Neves, o Juquinha, ligado ao deputado Valdemar Costa Neto, cacique do PR e um dos rus do mensalo.

O advogado de Marcos Valrio, Marcelo Leonardo, negou para a ISTO a nova sociedade de seu cliente com Tolentino. Mas admitiu que o publicitrio tem ampliado seu leque de atuao. Ele possui um escritrio de consultoria empresarial e de negcios, disse o advogado. Este escritrio vem a ser o mesmo usado por Tolentino no sexto andar do nmero 925 da rua Sergipe, no bairro Savassi, em Belo Horizonte. Eles dividem o espao, mas atuam de forma independente, diz Leonardo. O advogado no esclarece que tipo de consultorias so essas.

Outra possvel extenso do Valerioduto na mira do Ministrio Pblico  a agncia Fields Comunicao, criada pelo fotgrafo publicitrio Sidney Campos. Pouco conhecido no mercado at recentemente, Campos  tratado em Braslia como pupilo de Valrio. O incio da parceria entre os dois foi o que chamou a ateno do MP. Em 2003, a SMP&B de Valrio ganhou o contrato de publicidade da Cmara Legislativa do Distrito Federal na gesto do ento deputado Bencio Tavares (PMDB). O contrato 013/03 da SMP&B era compartilhado com a agncia M. Cohen, que passou s mos de Sidney Campos na assinatura do primeiro aditivo contratual. Campos depois mudou o nome da empresa para DCR Comunicao e logo virou o controlador do contrato. Em outubro de 2005, temendo ser envolvido com o escndalo do mensalo, o deputado Tavares (que foi denunciado em junho por corrupo passiva e lavagem de dinheiro), aconselhou Valrio a retirar a SMP&B da conta da Cmara Legislativa. Planilhas de despesas de propaganda obtidas por ISTO revelam entretanto que a SMP&B, mesmo no fazendo parte formalmente do contrato, continuou recebendo os pagamentos. Um relatrio do terceiro trimestre de 2006 mostra que a Cmara emitiu um total de nove notas fiscais em nome da DCR, mas com o CNPJ da SMP&B. A maquiagem nos documentos oficiais permitiu que a agncia de Marcos Valrio embolsasse, s naquele perodo, mais de R$ 5 milhes.

A possvel fraude, no entanto, rendeu muito mais. O mesmo contrato de publicidade da Cmara Legislativa, assinado em 2003, recebeu cinco aditivos seguidos, estendendo sua durao at 2008. Seu valor saltou dos R$ 9 milhes iniciais para quase R$ 52 milhes. Auditores do Tribunal de Contas do DF, com base em questionamento da procuradora Claudia Fernanda, alm de considerarem ilegal a prorrogao do contrato aps a sada da SMP&B, tambm identificaram um prejuzo aos cofres pblicos de mais de R$ 4 milhes  e isso numa amostragem de 40% das notas fiscais. Com o fim do contrato com a Cmara, a DCR Comunicao passou a operar com outro CNPJ, em nome de DCR Marketing e Propaganda. Campos rebatizou a empresa com o nome de Fields Comunicao. Naquele mesmo ano de 2008, conseguiu a conta de publicidade do Ministrio do Esporte, na gesto de Orlando Silva. O que tambm intrigou os procuradores  que, antes de Campos, quem cuidava da publicidade do Esporte era justamente Marcos Valrio, por meio da SMP&B. Alvo da CPI que investigou o mensalo em 2005, esse contrato da SMP&B com o Ministrio do Esporte sofreu auditorias. A devassa encontrou diversas irregularidades, entre elas o direcionamento de patrocnios para entidades de Minas Gerais, subcontrataes, pagamentos indevidos de honorrios e fraudes na comprovao de despesas.

Apesar de o MP ver indcios de que Valrio estaria por trs de Sidney Campos, o dono da Fields Comunicao nega conhecer o piv do mensalo. Nunca o vi, nem me reuni com ele, diz. Procurado pela reportagem da ISTO, Sidney tambm negou inicialmente que fosse scio da DCR Comunicao quando a empresa atuava na Cmara Legislativa. Confrontado, porm, com os documentos internos da Cmara, ele acabou admitindo sua participao na agncia e no polmico contrato. Mas nunca repassei dinheiro para a SMP&B, afirma. O publicitrio atribui seu sucesso ao talento para atrair celebridades para peas publicitrias de rgos pblicos, sem pagamento de cach. Foi assim, segundo ele, no convite a Pel e Ronaldo Fenmeno para estrelarem a campanha da Copa de 2014. O contrato de divulgao de grandes eventos esportivos, avaliado em R$ 44 milhes, tambm foi entregue  Fields.

O Ministrio Pblico investiga os passos de Marcos Valrio em outras fontes tambm. Segundo um procurador que pede anonimato, o publicitrio tem se movimentado para operar ainda nos setores de petrleo e construo civil, de olho principalmente na reforma de aeroportos, como o de Confins. Prospecta igualmente oportunidades de negcios com a Copa de 2014 e a Olimpada de 2016. Nessa linha, o MP amplia sua investigao para a atuao das agncias MG5 e Solimes Publicidade, que tm como donos Ramon Hollerbach e Cristiano Paz, ex-scio de Valrio. Chama a ateno dos procuradores o fato de que Valrio e seus ex-parceiros, mesmo com seus bens bloqueados judicialmente e sem renda aparente, conseguem manter um alto padro de vida. Valrio, por exemplo, adquiriu nos ltimos trs anos duas casas de alto padro localizadas em Minas Gerais. Alm de registrar os imveis em nome da filha, ele declarou valores bem abaixo dos de mercado. Uma das casas, comprada oficialmente por R$ 550 mil, valia pelo menos o dobro no mercado  poca da transao, em 2009. O advogado de Valrio alega que os imveis so da filha, de apenas 21 anos, e esto declarados  Receita Federal.

 A situao atual de Valrio  bem diferente daquela imediatamente posterior ao escndalo do mensalo e ao bloqueio de bens. Na ocasio, alegando estar sem dinheiro, o publicitrio pediu  mulher, Renilda Santiago, que procurasse o ex-tesoureiro Delbio Soares em seu apartamento em So Paulo, onde ficou recluso durante meses. A proposta de Valrio era de que o PT quitasse seus cartes de crdito e lhe pagasse R$ 100 mil por ms, caso contrrio ele contaria tudo sobre o mensalo. A situao de penria de Valrio parece que durou pouco.  


6. KARINA A TESTEMUNHA ESQUECIDAS

A secretria que pela primeira vez revelou os nomes e a atuao dos principais envolvidos no Mensalo vive reclusa no interior paulista, no cr na condenao dos acusados, mas afirma que denunciaria novamente seu ex-chefe Marcos Valrio
Alan Rodrigues

 LONGE DOS HOLOFOTES - A secretria que apontou os caminhos do mensalo vive hoje numa chcara, estuda biologia por conta prpria e cuida da casa e do novo marido
 
Em junho de 2005, a ento secretria Fernanda Karina Somaggio revelou pela primeira vez os nomes e o papel de cada um dos principais envolvidos no esquema do mensalo. Ela trabalhava nas agncias de Marcos Valrio e em entrevista concedida  revista ISTO Dinheiro relatou como Jos Dirceu, Delbio Soares, Slvio Pereira e Jos Genoino, dentre outros, se relacionavam com o publicitrio. Afirmou ter visto malas de dinheiro saindo do escritrio da SMP&B, em Belo Horizonte, para os vrios destinos indicados pelos lderes petistas. Na Polcia Federal e na CPI dos Correios, Karina reafirmou o que dissera  revista e seus depoimentos foram fundamentais para a descoberta do modus operandi do valerioduto. Na tarde da quinta-feira 2, enquanto milhes de brasileiros assistiam pela tev ao incio do julgamento do mensalo, no interior de So Paulo, Karina acompanhava os debates no STF sem muito entusiasmo. Isso no vai dar em nada, disse, incrdula.

JUNHO DE 2005 - Karina diz  ISTODinheiro que malas de dinheiro transitam pela agncia de Valrio e cita pela primeira vez Silvio Pereira, Jos Dirceu, Jos Genoino e Delbio Soares
 
Passados sete anos do escndalo, a secretria do mensalo, como ficou conhecida, recusa o ttulo de garota nacional que lhe atriburam por ter tido a coragem de denunciar o prprio chefe e por ter sido convidada a posar nua para uma revista masculina. Aos 39 anos, mais introspectiva, econmica nas palavras, voz baixa e delicada, ela evita a imprensa, diz-se totalmente decepcionada com a poltica. Mas qualquer que seja o resultado do julgamento, a cultura da corrupo no Brasil no mudar. No adianta, a populao  ignorante politicamente, afirma ela. Aconteceu tudo aquilo e boa parte dos polticos envolvidos com o esquema continua no poder, lamenta.Karina, no entanto, no se arrepende das denncias que fez. Ela admite que sua atitude lhe trouxe muito prejuzo pessoal. Estou desempregada at hoje, conta. A vida da ex-secretria, de l para c, teve outros momentos de turbulncias. Ela teve o pai assassinado dentro de casa durante um assalto, foi ameaada de morte, separou-se do marido e respondeu a diversos processos movidos por Marcos Valrio, que a acusou de extorso. Ganhou todos. Em 2006, Karina foi candidata  deputada federal em So Paulo pelo PMDB. Conquistou 2.307 votos, mas no se elegeu. A desiluso com a poltica e um novo casamento a fez recolher. Hoje, vive com discrio em uma chcara no interior de So Paulo. Estuda biologia por conta prpria e virou dona de casa. Apesar das dificuldades, vivo feliz. Aqui ningum me conhece. Estou em paz, cuidando da famlia, diz.

NA MIRA - Delbio Soares foi um dos alvos da ento secretria

Karina trabalhou na SMP&B de maio de 2003 a janeiro de 2004. Na entrevista  ISTODinheiro, em 2005, ela disse que o ex-tesoureiro do PT, Delbio Soares, ajudava a transferir dinheiro da empresa de Valrio para polticos beneficirios do mensalo. Segundo Karina, Valrio tinha um departamento financeiro para cuidar especialmente disso. Em depoimento  CPI dos Correios, ela afirmou que Valrio fazia saques vultosos antes de viagens, e que esses saques chegavam a R$ 1 milho. Karina tambm mostrou como os integrantes do esquema faziam saques milionrios na boca do caixa do Banco Rural. Antes do depoimento, a ex-secretria entregou aos integrantes da CPI cpia da agenda em que fazia anotaes desse perodo. A agenda apontava contatos do publicitrio com diversos polticos. Apesar dos momentos de tenso que viveu logo aps a ecloso do escndalo, e dos sobressaltos por que passou desde ento, Karina garante que denunciaria tudo novamente. Fiz tudo por patriotismo, diz ela.


7. PENA IMEDIATA

Relator do mensalo, o ministro Joaquim Barbosa vai propor que os condenados no processo cumpram as sentenas logo aps o trmino do julgamento pelo supremo
Izabelle Torres e Claudio Dantas Sequeira

TENSO - O clima esquentou entre ministros do STF na primeira semana do julgamento do mensalo
 
Desde que o processo do mensalo caiu em suas mos para ser relatado, o ministro Joaquim Barbosa passou a alimentar uma nica certeza: os 38 rus do maior escndalo de corrupo da histria recente do Pas s seriam julgados se o caso tivesse prioridade sobre os milhares de aes que tramitavam no Supremo Tribunal Federal. Para isso, foi necessrio mudar a rotina processual, alterar ritos e driblar a burocracia jurdica to bem explorada pelos advogados de defesa. Nesse caminho, Barbosa foi acusado de atropelar a lei e jogar para a plateia, ao se submeter  presso da sociedade. Agora, o ministro prepara uma nova cartada polmica. Vai propor que a sentena contra quem for condenado seja cumprida imediatamente. Isso significa que ao trmino do julgamento, que comeou na quinta-feira 2, os rus poderiam ser surpreendidos com o cumprimento de mandados de priso em suas residncias, onde hoje assistem s sesses da corte confortavelmente pela tev.
 
Para a ideia de Barbosa ter efeito, no entanto, ser necessrio fazer uma nova interpretao das leis em vigor, que hoje preveem o cumprimento de sentenas apenas aps a publicao dos acrdos. Como o resumo do julgamento s  publicado depois que todos os ministros revisam seus votos, a demora de um deles para fazer a anlise pode retardar a aplicao das penas. Alm disso, ainda h um leque de recursos que os advogados podem lanar mo para questionar a deciso da corte.  isso que o relator quer evitar, apesar de saber que no ser fcil convencer os outros dez ministros. Prova dessa dificuldade foi a dura discusso travada por Barbosa com o revisor do processo do mensalo, o ministro Ricardo Lewandowski, na primeira sesso de julgamento. O motivo foi uma questo de ordem apresentada pelo advogado Mrcio Thomaz Bastos para tentar mais uma vez desmembrar a ao penal, e enviar para a primeira instncia quem no tivesse foro privilegiado.

O problema  que a questo j tinha sido discutida pelo plenrio em 2007 no julgamento que recebeu a denncia do Ministrio Pblico. Por isso, Barbosa avaliou que o longo voto de Lewandowski sobre o assunto foi apenas mais uma tentativa de protelar o julgamento. Isso  deslealdade. Vossa excelncia  revisor do processo h dois anos. Por que no levantou essa questo antes?, questionou Barbosa. Ele acompanhou parte da sesso deitado numa maca, de short e camiseta, numa sala especial onde se submeteu a fisioterapia para a dor na coluna. Para Lewandowski, no entanto, a corte precisava analisar o caso mais uma vez. O STF tinha de enfrentar a matria para balizar futuras decises em situaes anlogas, argumentou. Nos bastidores, at o presidente do Supremo, ministro Carlos Ayres Britto, se irritou com a insistncia do tema na pauta, pois um acordo informal entre os ministros previa que a questo de ordem seria tratada rapidamente para no atrasar o cronograma. 

Para garantir a celeridade, Britto tambm decidiu suspender na prxima semana as sesses das turmas em que so julgados os pedidos de habeas corpus, e pediu que o Tribunal Superior Eleitoral adiasse o incio da sesso da tera-feira 7, para evitar a debandada dos ministros. Essa disposio do presidente do Supremo  o que anima Joaquim Barbosa a propor procedimentos inditos. Foi assim, por exemplo, com as cartas de ordem emitidas para a Justia de primeira instncia. Fugindo do ritual tradicional, o relator passou a determinar por fax s Varas a hora e o local em que os juzes deveriam ouvir as testemunhas. Magistrados de todo o Pas se irritaram com a conduta que, segundo muitos deles, interferia na autonomia do Judicirio nos Estados, prejudicando a rotina dessas cortes. Em alguns casos, a imposio de Barbosa provocou crise. Na 10 Vara Federal de Braslia, a mais importante da capital, a juza Maria de Ftima Pessoa se negou a cumprir a determinao do relator do mensalo. Barbosa, ento, ligou pessoalmente para ela e ameaou acionar a Corregedoria da Justia Federal. Depois do enfrentamento, a magistrada, indignada, decidiu se aposentar.

ABATIMENTO - Considerado o chefe da quadrilha pelo Ministrio Pblico, Jos Dirceu corre o risco de ser preso logo aps o julgamento no STF
 
Mesmo ante as adversidades, o relator se manteve firme na disposio de dar celeridade ao processo e evitar a prescrio dos crimes. Muitas oitivas de testemunhas foram marcadas por Barbosa em horrios prximos, mas em cidades diferentes. Isso evitou que advogados dos rus conseguissem se deslocar a tempo de ouvir os depoimentos referentes a outros acusados. O relator tambm ignorou os inmeros pedidos de diligncia feitos pelos advogados. A defesa da cpula do Banco Rural, por exemplo, teve negado pedido de quebra do sigilo das movimentaes feitas pela SMP&B no Banco do Brasil. A ideia era comparar os procedimentos de controle e mostrar que o Rural cumpriu as determinaes do Banco Central e seria at mais rgido na concesso de emprstimos. Como efeito colateral, a devassa no BB poderia reforar as provas de que o valerioduto utilizou recursos pblicos. Outra diligncia negada por Barbosa foi a abertura das contas das unidades do Rural no Exterior, responsveis pelo depsito de cerca de R$ 10 milhes na conta bancria do publicitrio Duda Mendona. 

Barbosa acredita que os pedidos dos advogados eram simples aes protelatrias para atrapalhar o enredo que traou para garantir o julgamento e evitar que a credibilidade do Supremo fosse posta  prova.  


8. BRASIL CONFIDENCIAL - "TCHAU, BOLSA"
por Marta Salomon 

Nos ltimos nove meses, 10.667 famlias abriram mo do Bolsa Famlia. Estimulada pela garantia de que as famlias podero voltar a receber o pagamento caso o bolso aperte, a emancipao foi mais forte na Bahia, Minas Gerais, Paran e So Paulo. O Bolsa Famlia paga entre R$ 32 e, em raros casos, mais do que R$ 1 mil por ms, dependendo do grau de pobreza e do nmero de filhos. O registro de sada voluntria  pequeno em relao aos 13,5 milhes de beneficirios. Para ns  surpreendente, diz a ministra Tereza Campello, do Desenvolvimento Social. Ela sinaliza definir metas para a emancipao, um tabu mantido durante o governo Lula.
